O que aconteceu com a cultura e a contracultura?
Da explosão dos anos 60 à estagnação moderna: para onde foram as nossas revoluções?
Vivemos uma ilusão de ótica contemporânea. Se você olhar para a tela do seu celular, terá a sensação de que o mundo muda vertiginosamente a cada minuto. Atualizações de software, novas inteligências artificiais, tendências que nascem e morrem em uma semana. No entanto, se olharmos para as estruturas fundamentais da sociedade (como trabalhamos, como imaginamos o futuro e como nos organizamos), a verdade é que parecemos ter pisado no freio.
As últimas quatro décadas têm sido marcadas por um descompasso brutal: a tecnologia avança a uma velocidade assustadora, mas a nossa capacidade de sonhar e implementar novas formas de viver em sociedade parece ter estagnado. Para entender como chegamos a esse silêncio criativo, precisamos olhar para a última vez em que o mundo realmente explodiu: os anos 1960.
A década de 60 não foi apenas um desfile de moda colorida ou um festival de rock; foi o ponto de ebulição de tensões que vinham se acumulando desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Tudo começou com uma questão matemática e econômica. O chamado Baby Boom gerou uma explosão populacional sem precedentes. Quando essa massa gigantesca de jovens chegou à vida adulta nos anos 60, eles eram numerosos demais para serem ignorados. Pela primeira vez na história, a juventude tornou-se uma classe social distinta. Mais do que isso: era uma juventude que cresceu no auge da prosperidade econômica do pós-guerra. Seus pais haviam focado na sobrevivência, mas esses jovens, com as necessidades básicas já garantidas, tiveram o privilégio histórico de questionar o próprio modelo de vida. O trabalho burocrático, o materialismo e a vida nos subúrbios passaram a ser vistos como uma prisão sufocante. Ou seja: os jovens eram rebeldes com causa e com voz.
Junte a isso inovações que mudaram a relação humana com o corpo e com o mundo. A invenção da pílula anticoncepcional separou a sexualidade da reprodução, entregando às mulheres o controle sobre seus destinos e engatilhando a Revolução Sexual. Ao mesmo tempo, a televisão transformou o planeta em uma "aldeia global". Foi a primeira geração a jantar assistindo aos horrores da Guerra do Vietnã e à violência policial contra a população negra americana, o que serviu de combustível inflamável para movimentos civis e pacifistas.
Havia também o medo. A sombra do apocalipse nuclear pairava sobre tudo. Para um jovem daquela época, a lógica era simples e niilista: por que eu deveria seguir as regras morais, políticas e econômicas das gerações mais velhas, se foram exatamente essas regras que nos trouxeram à beira da aniquilação total?
O pradoxo brasileiro
No Brasil, essa explosão global desembarcou em um cenário complexo e paradoxal. Enquanto o mundo vivia a libertação dos costumes, o país mergulhava, a partir de 1964, na ditadura militar, que atingiria seu ápice de repressão em 1968 com o AI-5.
O resultado foi uma explosão criativa espremida pela censura.
Tivemos a Tropicália, que antropofagicamente engoliu a psicodelia e as guitarras elétricas globais e as misturou com nossas raízes, travando uma guerra cultural que incomodava tanto os generais conservadores quanto a esquerda tradicional. E enquanto parte da juventude partia para a trágica luta armada, outra adotava o "desbunde"; a versão brasileira da contracultura. Sem espaço para o debate político formal, resistir significava mudar os próprios costumes, abandonando a estética burguesa e o mercado de trabalho tradicional.
O fim das utopias
Mas, afinal, o que aconteceu depois? Como fomos de uma geração que queria derrubar o sistema para uma sociedade que parece conformada apenas em atualizá-lo?
A virada ocorreu entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980. O foco da sociedade mudou de direção: abandonamos o "nós" e abraçamos o "eu". Com a ascensão do neoliberalismo, o espírito de coletividade perdeu espaço para a hipervalorização do indivíduo. Quando a métrica de sucesso de uma geração deixa de ser a criação de uma nova sociedade e passa a ser a performance pessoal, o empreendedorismo e o acúmulo financeiro, as grandes lutas estruturais perdem força.
Entramos na era do que o filósofo Mark Fisher batizou de "Realismo Capitalista". Com o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim, consolidou-se a sensação de que não há alternativa viável ao sistema atual. Fisher resumiu perfeitamente o nosso tempo com a frase: "É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo". Hoje, conseguimos produzir filmes e séries incríveis sobre apocalipses zumbis, desastres climáticos e invasões alienígenas, mas somos incapazes de imaginar um modelo econômico fundamentalmente diferente do atual.
O mercado também aprendeu uma lição valiosa com os anos 60: a rebeldia dá muito dinheiro.
Usar jeans rasgado ou ter cabelos longos já foi uma afronta ao establishment. Hoje, a cultura corporativa absorveu a revolta. A camiseta com mensagens subversivas é produzida por multinacionais; o grafite de protesto virou estampa de grife; e atitudes "rebeldes" são usadas para vender carros e cartões de crédito. O sistema neutralizou a mudança estrutural transformando a indignação em um bem de consumo.
Por fim, fomos anestesiados pela ilusão da aceleração digital.
A internet fragmentou a sociedade. Em vez de grandes movimentos coesos marchando por um objetivo estrutural, fomos divididos em bolhas virtuais que debatem intensamente questões hiper-específicas. Gritamos muito nas redes sociais, indignamo-nos diariamente e cancelamos uns aos outros. Mas, quando desligamos a tela, a estrutura de poder, o modelo de trabalho exaustivo e as engrenagens da desigualdade econômica permanecem, em sua essência, inalterados.
Trocamos a revolução estrutural pela comodidade das micro-revoluções digitais. E é por isso que, apesar da velocidade da banda larga, a história parece estar, há quatro décadas, andando em círculos.
Como diria Belchior:
E você, leitor, ainda mantem a "rebeldia" juvenil ou cedeu ao sistema?
Boa Sorte e Sucesso!

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