O morro dos ventos uivantes.
Escritora: Emily Brontê.
Se você entrar em O Morro dos Ventos Uivantes esperando uma história de amor convencional, sairá horrorizado. A genialidade de Emily Brontë foi criar uma obra que se disfarça de romance gótico, mas que, em sua essência, é um estudo brutal sobre o ciclo do abuso, a toxicidade da obsessão e a vingança de classe.
Ao contrário das adaptações (que costumam romantizar Heathcliff), o livro nos força a encarar a feiura humana sem filtros.
1. A estrutura: Narradores não confiáveis
A complexidade começa na forma. Não lemos a história diretamente; nós a ouvimos através de fofocas.
Sr. Lockwood: O forasteiro ingênuo que aluga a Granja e acha Heathcliff um "tipo interessante". Ele representa a sociedade "civilizada" e ignorante.
Nelly Dean: A governanta que narra o passado. Ela não é uma observadora neutra; ela interfere, esconde cartas, julga e manipula os eventos. Essa camada dupla de narração nos lembra que a "verdade" sobre Heathcliff e Cathy é sempre subjetiva e distorcida.
2. A primeira geração: O Amor como destruição
A relação entre Heathcliff e Catherine Earnshaw não é romântica; é metafísica e narcisista.
"Eu sou Heathcliff": A frase mais famosa do livro não é uma declaração de afeto, mas de identidade. Catherine não ama Heathcliff como outra pessoa; ela o vê como uma extensão de si mesma. Quando ela se casa com Edgar Linton, ela não o faz por falta de amor a Heathcliff, mas por ambição social, acreditando ingenuamente que poderia usar o dinheiro do marido para ajudar o "irmão" adotivo.
Heathcliff, a vítima que vira algoz: Brontë é cirúrgica ao mostrar como monstros são criados. Heathcliff chega como uma criança de pele escura (descrito como "cigano" ou "lascar"), sofre racismo e é degradado a servo por Hindley. Porém, o livro não o perdoa. Ao retornar rico, Heathcliff não busca justiça; ele busca destruição total. Ele brutaliza Isabella, manipula o próprio filho doente para roubar heranças e sente prazer na dor alheia. Ele é um vilão complexo, mas indubitavelmente um vilão.
3. A segunda geração: Onde está o verdadeiro "ouro"
A maioria dos filmes ignora a segunda metade do livro, mas é aqui que reside a tese de Brontë. A história se repete, mas com um desfecho diferente.
Temos um novo triângulo: Cathy (filha de Catherine), Linton (filho de Heathcliff) e Hareton (filho de Hindley).
Heathcliff tenta replicar o abuso: ele força Cathy a casar com seu filho moribundo (Linton) e trata Hareton como um animal, negando-lhe educação (assim como Hindley fez com ele).
A Quebra do Ciclo: A diferença crucial é que a jovem Cathy e Hareton escolhem a bondade. Cathy, inicialmente preconceituosa, ensina Hareton a ler. Hareton, apesar de bruto, não tem a malícia de Heathcliff. O amor que nasce entre eles no final não é tóxico ou obsessivo; é construído sobre educação, paciência e mudança mútua.
4. O sobrenatural ambíguo
Brontë nunca confirma se os fantasmas são reais.
No início, Lockwood vê a mão de uma criança (Cathy fantasma) na janela. Pode ser um pesadelo.
No final, os camponeses dizem ver Heathcliff e Catherine vagando pelos mouros. O "assombro" no livro é mais psicológico do que literal. Heathcliff é assombrado não por um espírito de lençol branco, mas pela memória e pela recusa em deixar o passado morrer. Ele profana o túmulo de Catherine para que, ao morrer, a poeira de seus corpos se misture. É necrófilo, grotesco e estranhamente transcendente.
5. Conclusão: Civilização vs. selvageria
O livro é um duelo geográfico entre a Granja dos Tordos (Cultura, livros, suavidade, hipocrisia, a família Linton) e o Morro dos Ventos Uivantes (Natureza, vento, tempestade, paixão bruta, a família Earnshaw).
Heathcliff e Catherine são forças da natureza que não cabem na civilização. Eles destroem a todos e a si mesmos porque tentam viver sem as barreiras sociais. O final do livro, com a morte de Heathcliff (que morre de inanição voluntária, em êxtase, olhando para o vazio/fantasma de Catherine), traz a paz.
Veredito: O livro é uma obra-prima porque se recusa a ser moralista. Brontë nos mostra que o amor, sem empatia e sem limites, é apenas egoísmo. A redenção só vem na segunda geração, quando os personagens aprendem a ler (literal e metaforicamente) o outro, em vez de apenas consumi-lo.
"O Morro dos Ventos Uivantes" é uma obra-prima da literatura, que oferece uma leitura intensa e desafiadora. A escrita rica e poética de Emily Bronte, a complexidade dos personagens e a trama surpreendente tornam este romance um clássico atemporal, que continua a fascinar os leitores até hoje.Boa Leitura!

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